terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Surrealismos


Imagem em : bp0.blogger.com/.../s400/AMBULANCIAS3.jpg

- Estou com dores no peito! Aiiiiiii, que dor tão aguda! Não consigo respirar! Por favor liga para o número de emergência, rápido!
- O quê? Que dizes? Só podes estar a brincar, mas não tem piada!
- És mesmo estúpida! Qual brincar?! Liga imediatamente acho que estou a ter um ataque cardíaco.
A mulher entrou em pânico e em plena histeria ligou. A chamada foi super-stressante, mas a custo lá conseguiu dar a morada e descrever os sintomas dos quais o marido padecia.
Menos de cinco minutos volvidos e entravam-lhes pela casa uma equipa de emergência médica, com uma maca e uma mala com os primeiros suportes de vida. Estabilizaram-no, meteram-no na maca e seguiram para a ambulância. Lá dentro o condutor tentava a todo o custo, contactar com um dos vinte sete hospitais centrais da cidade. Como o mais próximo do local onde se encontravam não dava uma resposta positiva, começaram a dirigir-se para o seguinte. Quando lá chegaram, não os deixaram tirar o paciente da ambulância dizendo-lhes que não tinham espaço disponível para o receber.
Foram seguindo a viagem pelo purgatório de Paris, que aos poucos foi-se revelando uma viagem pelo inferno. A cada paragem desesperada a mesma resposta lacónica.
- Sentimos muito, não temos espaço.
E a qualquer tentativa, de argumentação.
- Mas este é o décimo hospital que vimos!
- Sinto muito, regras são regras! Não se preocupe, há-de encontrar algum que o receba.
Aos poucos a situação clínica, foi-se instabilizando. A ambulância apenas tinha suporte de vida para algumas horas, não estava preparada para uma situação daquelas. Os paramédicos desesperavam, tentavam a todo o custo fazer o melhor que conseguiam na difícil situação em que se encontravam. O condutor já tinha dificuldade em conduzir, tal já era o stress que estava a acumular. Passadas três horas já só conseguia articular.
- Merda! Merda! Merda! Ele vai morrer aqui! Tão-se todos a cagar para nós!
Qual profeta, o paciente acabou por sucumbir passadas seis horas dentro do único local que o recebeu e lhe deu esperança de poder voltar à vida.

Texto baseado na notícia:

“ Paris, 30 Dez (Lusa) – Um homem de 57 anos, que sofreu um ataque cardíaco nos arredores de Paris, sábado, morreu depois de ter esperado seis horas por falta de espaço num serviço de reanimação, em plena polémica sobre a falta de meios nos hospitais franceses. (Jornal 2- RTP)”

O Menino de Gaza


Imagem em: www.rtp.pt/.../images/articles/379700/gazahp.jpg

Acordou estremunhado, com a mãe a chama-lo para o pequeno-almoço. Ainda nem o sol tinha nascido e este menino já se lavava e vestia para ir para a escola. Dias de Gaza não se compadecem com quem lá vive, duros e áridos como a paisagem, afiados como o aço das bombas, rockets, balas que são projectadas.
- Arafat já rezaste? Só podes começar a comer depois de rezar.
- Ó mãe, mas não é justo! O papá já está a comer e as manas também.
- Isso foi porque já rezaram...vá não faças birra e reza!
Arafat contrariado levantou-se, virou-se para Meca e começou as suas orações. Este era o filho mais novo do casal e o nome tinha-lhe sido dado em homenagem ao carismático líder Palestiniano.
- Já posso começar a comer agora!?
- Não sejas impertinente, sabes bem que podes.
Após o pequeno-almoço, recebeu um saco com o almoço, pegou na mala, despediu-se da família e dirigiu-se para casa do seu amigo Said (com que seguiria para a escola). O sol começava a nascer e o dia ia ganhando tons mais suaves quando deixaram a casa de Said, a discutir quem era o melhor jogador de futebol do mundo.
O bairro deles foi ficando para trás e aos poucos aproximavam-se de zonas mais destruídas. Buracos de balas e morteiros eram vísiveis em vários edifícios, carros carbonizados, ruas cheias de entulho e arame farpado, eram as marcas de uma zona massacrada por um conflito de seis décadas. Quando passaram o primeiro posto de controlo montado pelos soldados israelitas (uma vez que a escola estava situada no lado judaico da faixa de Gaza), discutiam de maneira tão acalorada qual o melhor Messi ou Ronaldo, que até os soldados se riram.
As horas do dia foram sendo desfiadas lentamente. De manhã aulas sem interrupções, apenas uma paragem já próxima do meio-dia para rezar e almoçar. A tarde essa, iniciou-se com a leitura do Corão, prosseguiu com escrita, paragem para rezar e acabou com o tradicional jogo de futebol com bola de trapos. No caminho de regresso já não havia discussão acesa, estavam ambos exaustos e só pensavam em chegar a casa e descansar. Antes do jantar ainda houve mais duas orações, trabalhos de casa e finalmente um pouco de tempo para brincar.
A família estava finalmente reunida à mesa, a comer animadamente quando se ouviu um primeiro estrondo. Um barulho ensurdecedor atingiu-os como uma onda de choque violenta, pela janela viram uma luz avermelhada e chamas a deflagrarem pelo céu da noite, que agora era menos escura.
O pai gritou de modo a fazer-se ouvir:
- Todos para o vão interior do quarto! Afastem-se das janelas e mantenham-se unidos!
A família correu para o local e os seus corpos que tremiam juntaram-se, de modo a protegerem-se uns aos outros. Porém de nada lhes serviu, passados poucos minutos o prédio foi bombardeado, incendiou-se e começou a desmoronar-se. Felizmente para eles passaram a ponte para o outro lado, quando um primeiro fragmento de calor e luz os atingiu e o pai ainda conseguiu articular.
- Foi uma estrela cadente meninos, Alá ofereceu-nos o ouro do céu...



Texto baseado na notícia:
“A aviação israelita voltou hoje a bombardear vários sectores do enclave palestiniano da Faixa de Gaza, no segundo dia de uma ofensiva que já provocou 280 mortos e 620 feridos.” (site da RTP)

O minuto com 61 segundos



Imagem em: www.wallpaperbase.com


O space shuttle dirigia-se para a Terra a toda a velocidade, os escudos térmicos estavam accionados e começava a ver-se a incandescência das ligas metálicas devido ao atrito. Os astronautas estavam ansiosos pelo regresso, afinal a missão já contava com seis meses e a vida no espaço apesar de toda a beleza, desgastava pela monotonia.
Pelos elaborados cálculos matemáticos estaria para breve a entrada na órbita terrestre, subitamente os computadores recalcularam a trajectória e deram o sinal de alerta. Alarmes soaram tanto a bordo, como na agência espacial internacional e gerou-se o pandemónio, cientistas começaram a deitar as mãos à cabeça, mas a frieza das máquinas não deixava dúvidas. Aqueles astronautas jamais voltariam a pisar o planeta Terra, um ligeiro desvio no ângulo de entrada na atmosfera fez com que a fricção fosse excessiva, como consequência os materiais não suportaram a temperatura e deu-se a desintegração completa.
Nos dias seguintes à tragédia, houve uma tremenda atenção por parte dos media e explicações sucederam-se. Falha dos escudos térmicos avançavam uns, erros nos cálculos referiam outros, havia ainda quem divulgasse que os materiais eram de qualidade mais fraca para diminuir os custos, porém o tempo foi passando e o relatório oficial não era divulgado. Lentamente os media foram perdendo o interesse e com eles, a opinião pública em geral. Enquanto isso o relatório foi elaborado e arquivado (chegaram-se a conclusões, mas estas nunca foram divulgadas devido ao embaraço que iriam causar).
A Terra continuava a mover-se como sempre, desde os seus primórdios. Mas com toda a tecnologia ao dispor do ser humano o tempo atómico passou a ser o método mais estável e exacto de medição. Na comunidade científica o método tradicional, o da rotação do eixo da Terra era obsoleto, sendo apenas referido pelas massas, como senso comum. Desse modo esse método mais antigo e também mais instável, necessitava ser acertado, afinal em 700 anos podia-se atingir a diferença de uma hora.
Nesse ano o último minuto teve 61 segundos e para quem pensa que um segundo não é relevante, atente. Num segundo: pode-se dizer o que nunca se disse a vida inteira (amo-te, odeio-te, beija-me, dispara...), bater um recorde, ganhar ou perder uma corrida, uma prova ou até a vida... e falhar a órbita da Terra.

Texto Baseado na notícia:

“No último dia do ano, o último minuto terá 61 segundos, para compensar a rotação do eixo da terra que abrandou ligeiramente. Cientistas decidiram acrescentar ao tempo atómico um segundo para “acertar” o tempo da terra." (Telejornal -RTP1)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A Toupeira e o Rato Voador


Sentado num auditório cheio, sentiu-se sozinho. O orador fazia uma lavagem cerebral sobre uma das empresas que patrocinara o evento. O poder dos patrocinadores sempre o impressionou. Fornecem o dinheiro e ficam com o poder de se envolver no evento, tornando-o aborrecido, enfadonho, vazio. Nesta altura perguntou-se o que fazia ali. A mente assemelhava-se a uma película de cinema, passando imagens velozmente. Pensava no tempo perdido inutilmente, na “obrigação” de estar preso e voou na história.

A Toupeira e o Rato Voador

Na terra verde azeitona da Calipómia existiam duas criaturas. Uma toupeira que vivia no interior da terra, sempre a escavar, a usar outros sentidos para além da visão, no meio da humidade, dos vermes, da escuridão. Por ironia não havia animal mais limpo, o pelo e as suas garras estavam sempre brilhantes, apesar de toda a imundice em que habitava. E o rato voador, este tinha toda a liberdade do espaço, o céu era o limite. Voava e vagabundeava conforme lhe apetecia, mas não tinha amigos, o pelo apesar de limpo tinha sempre um cheiro desagradável, afastando outros seres.
Uma noite a toupeira veio à superfície, gostava de sentir a brisa, o vento nas faces, sonhar com a luz que não podia suportar e principalmente com a possibilidade de voar. Mesmo a sonhar o focinho, perscrutava a escuridão à procura de qualquer indício de predadores ou outros seres. Gostava de saber todas as novidades que aconteciam fora do seu habitat e por isso sempre que podia entabulava conversa. Repentinamente o seu olfacto apurado, detectou um cheiro bastante desagradável, mas como a curiosidade era superior ao desconforto, deixou-se ficar alerta.
Passados poucos segundos, vindo do céu o rato voador pousava as suas patas no solo. Estava com um ar desolado e alienado, lentamente dirigiu-se para um tronco. Sentou-se e começou a chorar, com a voz embargada pelas lágrimas.
- De que me serve voar, conhecer todo o mundo, saber todas as novidades se não tenho amigos? Poder sentar-me e conversar, desabafar, partilhar as minhas histórias e ouvir as de outrem. Haverá algo mais gratificante?
A toupeira ouviu o apelo de solidão e apesar de renitente inicialmente, aproximou-se tocando-lhe. Este lentamente parou de chorar, limpou as lágrimas e levantou a cabeça, à sua frente estava a toupeira de olhos semi-cerrados, a olhar. Ficou confuso, nunca nenhum ser se aproximara tanto de si. Vencendo a surpresa inicial, articulou finalmente.
- Que fazes aqui? Como consegues estar tão próxima, apesar do meu odor pestilento?
- Porque sou curiosa por natureza. Gosto de falar com outros seres, saber novidades do mundo e nunca vi nada que se assemelhasse, um rato voador.
- Pensas então que sou um bicho raro, que deve ser admirado?
- Antes de admirado, respeitado. Não te conheço, não te posso admirar apenas por voares. Ainda para mais se foi um dom com o qual nasceste?
- Sim foi…és ponderada, racionalista e bastante serena.
- E sonhadora, optimista e curiosa…
O rato durante uns momentos calou-se e fixou o olhar no vazio, como se mergulhasse em profunda introspecção. De repente voltou a si.
- Toupeira, vives nas profundezas e és um ser feliz. Eu por meu lado vivo com toda a liberdade e sou uma imagem tua mas assimétrica. Ensina-me a ser como és!
- Ensinar-te a ser feliz? Isso não existe, nem é possível de ensinar. O que posso fazer é passar algum tempo contigo e ensinar-te a ver a felicidade em pequenos momentos, em pequenas coisas, coisas simples e diárias. Depois de observares, trilharás o teu caminho.
Iniciou-se uma nova fase na vida de ambos, mas principalmente do rato voador. A pouco e pouco foi descobrindo os pequenos prazeres. A aurora, as gotas de orvalho nas folhas, os reflexos nos charcos, o vento a murmurar entre árvores, os anéis dos cogumelos, o pôr-do-sol e nascer da lua, o silêncio quebrado pelo riso, pequenas conversas. Tinha pela primeira vez um amigo, ou melhor amiga, neste caso. Finalmente podia relatar a alguém todas as suas experiências, demonstrar a sua inteligência e aprender a ser paciente e mais atento. A toupeira, ouvia histórias de países e reinos distantes, fechava os olhos e com as descrições divagava com a mente. A relação dava pequenos passos, tornava-se forte como uma parede de titânio resplandecente em tons de prata. Certo dia, a meio de uma conversa.
- Toupeira, eu sei o quanto sonhas com voar. Queres voar comigo, para saberes qual a sensação?
A toupeira inicialmente ficou sem reacção. Não acreditava no que ouvia. Voar? Seria verdade? A mente carburava a todo o vapor, debitava pensamentos soltos. Sim, não, concretização de um sonho, medo de sentir a “luz” e não se voltar a adaptar à escuridão, amizade, dúvida…
Vendo que estava confusa, o rato prosseguiu.
- E para te sentires mais à vontade que tal uma permuta? Passas um dia comigo a voar, desculpa, noite no teu caso. E eu vou contigo para debaixo de terra, para as profundezas.
As dúvidas finalmente dissiparam-se, qual nevoeiro que é rasgado pela luz.
- Amadureceste, estás pronto para ser feliz, ou melhor para teres momentos de felicidade na tua vida. Aceito, afinal nada melhor que experimentar-mos o meio em que vivemos para sentir se ele nos molda, ou se molda conforme a nossa vontade.
Nesse dia a toupeira levou o rato para as profundezas, para a escuridão, para as trevas. Mostrou-lhe que mesmo num meio imundo existe beleza. A perfeição das galerias escavadas por ela e pelas suas irmãs, os formigueiros que trabalhavam com a precisão de um mecanismo de corda, os charcos e as grutas onde habitavam estranhos seres, que nunca viram a luz. Raízes e plantas de odores delicados e sabores adocicados. As horas passaram e o dia foi dando lugar à noite, rato e toupeira voltaram para superfície, onde encontraram uma noite de verão auspiciosa. Sentiram a aragem suave que corria e deixaram a terra, voaram juntos durante horas, qual estrelas cadentes. Do céu a toupeira via como o mundo se tornara amplo, livre sem peso; voaram ao lado de bandos de pássaros, furaram nuvens, sentiram os aromas e os sons da noite, percorreram distâncias.
Até que do nada ouvi-se PUM! PUM! Um tiro perfurou o rato voador e a toupeira simultaneamente e começaram a cair em queda livre. Felizmente no meio da dor e do pânico, conseguiram aterrar violentamente no meio da erva. Percorreram metros aos trambolhões, até se imobilizarem finalmente, no chão jaziam toupeira e rato voador. Momentos passaram a toupeira voltou a si e apesar de trôpega e a sangrar abundantemente arrastou-se até ao rato voador. Quando o viu soltou lágrimas, ele ainda respirava, mas com muita dificuldade.
- Fala comigo! Estou aqui! Hoje fizeste-me ver a luz, já não vou morrer na escuridão!
O rato voador, apesar da voz arfada e pesada, sorriu e respondeu.
- Eu hoje conheci a escuridão que me permitiu finalmente ver, que vivi na luz! Graças a ti vi-a finalmente!

Porque a vida é como é! Segue o seu curso natural, impávida e serena, alheia à vontade de cada ser.


Final Versão alternativa

A noite foi perdendo intensidade, o negro foi-se tornando azul-escuro quase negro, até começar a amanhecer. A toupeira fez sinal para descerem, estava na altura de voltar para a escuridão. Pousaram as patas no chão e olharam-se profundamente.
- Fizeste-me ver a luz! Mesmo que viva na escuridão, vou guarda-la no coração.
- Sempre vivi na luz mas sem ver a escuridão, nunca o soube. Graças a ti vi finalmente a iluminação.

Dedicada a todas as crianças existentes em cada um de nós. Por vezes é bom haver finais felizes.

Porto & Douro Wine Show


Imagem em: http://www.portodourowineshow.com/


Acordou e olhou para o telemóvel. Uma luz piscava e no ecrã: 1 mensagem recebida. Com o braço ainda trôpego pegou-lhe e começou a ler:
-Hello! Tens planos p lgo a tardinha? q tal o Porto & Douro wine show, no convento do Beato?beijo
Porque não? Nunca tinha estado num evento semelhante e provar vinho da zona do Douro era tentador. Como amante de vinho, aceitou o convite com um sorriso nos lábios.
Chegou à baixa, zona de encontro relativamente atrasado. Felizmente a sua companhia tinha estado com amigas e não esperou mais que dez minutos. Deslocaram-se para o carro que estava estacionado perto do teatro Mário Viegas e seguiram para o Convento do Beato. Nenhum dos dois sabia a localização, apenas tinham uma vaga ideia. Então pelo caminho foram perguntado várias vezes, encontrando mesmo uma pessoa que ia para o mesmo sítio, oferecendo-lhe boleia.
Finalmente chegaram e estacionaram onde era possível. Dirigiram-se à entrada, apresentaram o convite e compraram dois copos para a degustação. O espaço apresentou-se-lhes em todo o seu verdadeiro esplendor. Arcadas de mármore colorido delimitavam o espaço, onde decorria a exposição e para além dos muitos expositores de vinho, estavam lá alguns carros de gama alta expostos de modo a associarem a marca ao evento.
Observaram e a organização pareceu-lhes bem conseguida, apesar de muito compacta. Porém a quantidade de expositores era elevada, o que obrigava a uma boa gestão do espaço. Circularam lentamente, parando para provar diferentes vinhos consoante a intuição ou o conhecimento de determinada marca. Havia de tudo, brancos, tintos, reservas, portos, moscatéis, rosés. Sabores frutados, encorpados, leves, abertos, adstringentes, com notas de baunilha, especiarias e madeira (carvalho francês sobretudo), doces, suaves. Diferentes castas, aragonez, bastardo, castelão, touriga franca, touriga nacional, moscatel, arinto, cercial, viosinho. Envelhecidos ou não em madeira durante períodos variáveis. Todas estas múltiplas variantes e muitas mais foram sendo degustadas, ou melhor bebidas.
A dada altura chegou uma das famosas “amigas das amigas” e inicialmente considerou-a pouco simpática, uma vez que nem se apresentou e apenas cumprimentou a amiga. Quase simultaneamente apareceu uma individualidade jornalística desse país, sem qualquer snobismo aparente e diga-se bastante acessível, começou a falar com eles. Bem reformulando, com elas. Uma vez que ele se mantinha um pouco à margem da conversa, observando atentamente a cena que decorria à sua frente, indo buscar amiúde uns copos de vinho.
Basicamente essa consistia, num senhor respeitável a falar com duas jovens aspirantes a jornalistas. Das suas experiências, dos seus filhos, dando conselhos e dar cartões de contacto com número de telefone, e-mail e até MSN. A dada altura da conversa, a tal “amiga da amiga” virou-se para trás sorridente e apresentou-se, revelando uma face mais afável e simpática. Após o término deste momento, duas frases ficaram-lhe a soar nos ouvidos, ambas proferidas por tal ícone:
- Portugal é um país de tribos, eu conheço as tribos mas não faço parte delas; e
- Não nos devemos plastificar.
A degustação continuou como até aí, mas desta vez havia três almas que sorriam, falavam e provavam ou bebiam. Uma novidade foi naturalmente imposta pela nova alma, deslocarem-se à “tenda de fumo” para matarem alguns cigarros. Nessa altura o vinho começava a provocar estragos e a fazer-se sentir. A língua estava mais solta, as cabeças mais leves, existindo uma cumplicidade latente.
A feira estava em fase terminal, mas continuavam a “prova”. Sentia o gosto intoxicado mas não parava, estava a gostar do efeito. Nos últimos momentos ficaram junto de uma banca, onde elas apreciavam quem lá trabalhava e ele o vinho que lá existia, para além de verificar que muitas garrafas eram deixadas ao abandono, grande parte já abertas. Como amigo do ambiente decidiu “reciclar” e levar algumas para casa, nessa altura apenas estavam presentes pessoas que trabalhavam no sector vinícola. As amigas faziam sucesso, apresentações sucediam-se, números eram trocados e ele findou a sua missão quando encheu uma caixa.
Quando abandonaram o convento já passava da hora de fecho, que naquela altura a única religiosidade que emanava era de templo de Baco.
Entraram novamente na viatura e seguiram para casa com um jantar combinado. Aí operou-se um pequeno milagre gastronómico e à mesa juntaram-se cinco pessoas que se conheceram (quase todas) numa exposição de vinho e acabaram a noite juntas. A boa disposição era rainha na hora em que o imprevisível e o inesperado demonstraram, que a vida não passa de um caminho que é trilhado no presente.


23/11/2008 (em conjunto com a publicação de In Vinu Veritas)

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Rosamar


Choviam navalhas do céu, respirou fundo arqueando os membros e reuniu os seus homens. Tinha que os ouvir, antes de se fazer ao mar.
- As condições são péssimas, ondas de seis metros e ouvi pela rádio que estamos em alerta Laranja. Quero saber a vossa opinião.
Seguidamente falaram alguns membros da tripulação.

- Mestre, somos pescadores experientes. Respeitamos o mar, mas não o tememos!
- Trabalhamos juntos há muitos anos, sabemos que podemos confiar uns nos outros.
- O nosso barco não é uma casca de noz, estamos protegidos!
- Todos temos as contas para pagar e parados não ganhamos dinheiro!
Olhou à volta, viu caras determinadas e talhadas a pedra.
- É a nossa sina! Ir sem certezas de voltar, mas parados não sobrevivemos. Tenho a hipoteca da casa para pagar e uma família para sustentar! Temos de ir!
Os treze vestiram os oleados e dirigiram-se para o cais. O barco que aguardava, tinha uma envergadura de aço resistente, trinta metros de estabilidade que descansava os espíritos mais inquietos. Posicionaram-se nos seus lugares, largaram as amarras e partiram rumo à massa de escuridão, apenas rasgada pela luz dos relâmpagos e pela claridade da chuva. A buzina soou pelo triste porto que via partir os filhos, sem poder dar uma palavra de consolo.
Apesar da fúria dos elementos, do rugir do mar e do impacto das ondas, o barco foi deslizando com a confiança de ser o mais resistente, o mais forte, o mais corajoso. Os pescadores mantinham-se em estado de alerta e atarefados, sabiam que apesar de protegidos pela forte envergadura do progenitor, o mar merecia respeito. As redes foram desemaranhadas, bóias posicionadas, o convés desimpedido.
A quarenta quilómetros da costa, o mestre que ia ao leme deu o sinal para começarem a largar as redes, lentamente estas começaram a ser engolidas, pela massa de água que se agitava caótica. A noite foi clareando, deixando-lhes a esperança que as horas de trevas não passavam de uma recordação tenebrosa.
Subitamente um cabo ficou preso no fundo, funcionando como âncora. Uma primeira vaga atingiu o Rosamar impiedosamente, o barco empinou-se orgulhoso, pescadores desesperados gritavam e corriam, a tentar vestir os coletes de salvação. Lançava-se o primeiro pedido de socorro.
- Mayday Mayday, estamos a ser atingidos por uma tempestade, o barco está prestes a virar-se. Coordenadas…
Enquanto se lançava o pedido de SOS via rádio, uma segunda vaga abatia-se violentamente. O navio gemeu com o impacto e os pescadores começaram a cair no mar desamparados, apenas a força dos membros e dos coletes os mantinha à tona. Gritou-se para abandonar a embarcação, afinal já não havia salvação possível.
À terceira e última vaga fundiram-se dia e noite, e o último pedido desesperado de socorro perdeu-se. O barco num estrondo ensurdecedor virou-se completamente. O mestre na cabine de comandos foi arrastado para as profundezas, juntamente com os pescadores que se encontravam mais próximos do local, onde o Rosamar perdeu o seu orgulho e se vergou à vontade de um elemento maior.


Dedicado a todos os pescadores.

Baseado no naufrágio do Rosamar em cinco de Dezembro de 2008. A quarenta quilómetros da costa da Galiza, três pescadores morreram, cinco foram dados como desaparecidos e cinco foram resgatados.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

No Mundo da Escrita Criativa, IV


Entrou na sala e antes de qualquer actividade, começaram a falar da Cais Letras e da possibilidade de enviar um texto, em que o tema fosse Festas/Festejos. Desta vez a aula começou com oito dos dez elementos (um chegaria atrasado, o outro faltaria à última aula do curso).
A tarefa de relaxamento consistia em desenhar um contorno de uma mão com uma ponta de feltro, numa folha de papel e depois à medida que ouviam a leitura de um poema de Sophia de Mello Breyner deviam escrever palavras que lhes despertassem a atenção. Alguém foi escrevendo:


- Sol - Planícies - Peso - Mundo
- Lua - Vida - Vento - Mar
- Florestas verdes - Brancas - Divina - Paz
- Elástica - Azul - Ruas - Escura
- Carne - Terra - Amor + forte - Sangue
- Sujas - Regresso - Cinza - Areia
- Paredes - Claridade - Asa - Alma
- Miragens - Vida Secreta - Montanhas - Mãos
- Coisa - Oiro
- Nevoeiro - Muros
- Verdade - Sombra - Luz - Fugitiva
- Ar - Sabor


- Têm dez minutos para este exercício. Escrevam várias frases ou uma frase que depois se converta num pequeno texto, em que existam algumas dessas palavras e comece:

Nas linhas da mão escrevo...

Palavras soltas e fugitivas, que me trazem inúmeras recordações de luz e escuridão, de prazer ou obrigação.
Leio vento, mar, chuva, lua, florestas, nevoeiro e areia, cores de oiro.
Leio terra, quebra, peso, muros, cores de cinza e prata.
Não sei o que escrever, mas sei o que sentir. A felicidade de escrever por prazer, a alegria por ouvir música, canetas a riscar o papel, palavras a ganharem corpo e substância sempre que sejam de tolerância.

Todos leram os pequenos textos de aquecimento. E após uma breve troca de ideias, rapidamente passaram para a próxima tarefa.

- Vou ler-vos sete expressões. Com elas terão que criar um novo texto em dez minutos.

Expressões a utilizar :

- Meias de vidro
- Comprimidos
- Guardas chuvas de chocolate
- Fazer festas no cabelo
- Caixa de cartão
- Tomar Duche
- Comichão no nariz

Ia a passear na rua e vi uma caixa de cartão, no interior: meias de vidro, guardas chuvas de chocolate, uma caixa de comprimidos.
Repentinamente senti comichão no nariz e tive que o coçar, desculpem é um tique nervoso quando não sei o que pensar.
Olhei à minha volta e peguei na caixa, transportando-a debaixo do braço dirigi-me para casa. Cheguei, vi-me ao espelho e fiz uma festa no meu cabelo, ou melhor na do meu reflexo. Não lhe consegui tocar, senti o frio do vidro e comecei a chorar. Lágrimas escorriam, o meu lábio tremia ligeiramente, sentia frio e calor, parecia que estava a delirar. Resolvi um duche tomar, afinal raio de moço já és grande e crescido demais para chorar.

Durante a leitura dos textos, chegou o elemento atrasado, mas o ritmo de leitura manteve-se vivo. Algumas frases despertaram-lhe a atenção e o debate de ideias prosseguiu.

- Passem estas folhas entre vós, se fazem favor. Foi deste pequeno conto que tirei as sete expressões com que criaram o vosso texto. Alguém quer ler?

As pessoas crescidas

“As pessoas crescidas fui-as conhecendo de baixo para cima à medida que a minha idade ia subindo em centímetros, marcados na parede pelo lápis da mãe. Primeiro eram apenas sapatos, por vezes descobertos sob a cama, enormes, sem pé dentro, e logo calçados por mim para caminhar pela casa, erguendo as pernas como um escafandrista, num estrondo imenso de solas. Depois tomei conhecimento dos joelhos cobertos de fazenda ou de meias de vidro, formando ao redor da mesa debaixo da qual eu gatinhava uma paliçada que me impedia de fugir. A seguir vieram as barrigas de onde a voz, a tosse e autoridade saíam apesar do esforço inútil de suspensórios e de cintos.
Ao chegar à altura da toalha aprendi a distinguir os adultos uns dos outros pelos remédios entre o guardanapo e o copo: as gotas da avó, os xaropes do avô, as várias cores dos comprimidos das tias, as caixinhas de prata das pastilhas dos primos, o vaporizador da asma do padrinho que ele recebia abrindo as mandíbulas numa ansiedade de cherne. Compreendi por essa época que tinha o riso desmontável: tiravam as piadas da boca e lavavam-nas, a seguir ao almoço, com uma escovinha especial. Aconteceu-me encontrá-las sob a forma de gargantilhas de dentes num estojo de gengivas cor-de-rosa escondidas por trás do despertador nas manhãs de domingo, a torçarem dos rostos quem se elas envelheciam mil anos de rugas murchas como flores de herbário devorando os lábios com as suas pregas concêntricas.
Já capaz pelo meu tamanho de lhes olhar para a cara, o que mais me surpreendia neles era a sua estranha indiferença perante as duas únicas coisas verdadeiramente importantes do mundo: os bichos-da-seda e os guarda-chuvas de chocolate. Também não gostavam de coleccionar gafanhotos, de mastigar estearina nem de dar tesouradas no cabelo, mas em contrapartida possuíam a mania incompreensível dos banhos e das pastas dentríficas e quando se referiam diante de mim a uma parente loira, muito simpática, muito pintada, muito bem cheirosa e mais bonita que eles todos, desatavam a falar em francês olhando-me de banda com desconfiança e apreensão.
Nunca percebi quando se deixa de ser pequeno para se passar a ser crescido. Provavelmente quando a parente loira passa a ser referida, em português, como a desavergonhada da Luísa. Provavelmente quando substituímos os guarda-chuvas de chocolate por bifes tártaros. Provavelmente quando começamos a gostar de tomar duche. Provavelmente quando cessamos de ter medo do escuro. Provavelmente quando nos tornamos tristes.Mas não tenho a certeza: não sei se sou crescido.
Claro que acabei o liceu, andei na faculdade, tratam-me por senhor doutor e há séculos que ninguém se lembra de me mandar lavar os dentes. Devo ter crescido, julgo eu, porque a parente loira deixou de me sentar ao colo e de me fazer festas no cabelo provocando em mim uma comichão no nariz que me tornava lânguido e que aprendi mais tarde ser o equivalente do que chamam prazer. O prazer deles, claro, muito menor que o de mastigar estearina ou aplicar tesouradas à franja. Ou rasgar papel pela linha linha picotada. Ou mostrar o sapo à cozinheira e vê-la tombar de costas, de olhos revirados, derrubando as latas que anunciam Feijão, Grão e Arroz e que na realidade contêm massa, açúcar e café.
Devo ter crescido. Se calhar cresci. Mas o que de facto me apetece é convidar a parente loira para jantar comigo no Gambrinus. Peço ao criado que nos traga duas doses de guarda-chuvas de chocolate e enquanto chupamos a bengalinha de plástico mostro-lhe a minha colecção de gafanhotos numa caixa de cartão. Posso estar enganado mas pela maneira como me fazia festas no cabelo, com olhos tão jovens como os meus, quase aposto que ela há-de gostar.

António Lobo Antunes in Livro de Crónicas

A leitura foi expressiva, muito por influência da voz que lia. E após a leitura falou-se sobre o tema do texto, a maneira como fora construído e as recordações que lhe estavam subjacentes.

- Bem, antes de seguirmos para intervalo. Dividam uma folha ao meio e façam duas colunas onde escrevam as palavras Telemóvel e Coração e por baixo de cada uma delas, cinco palavras que vos remetam para elas.

Telemóvel: Teclas-Som-Objecto de Controlo-Visor-Mensagens
Coração: Emoção-Sangue-Bombear-Vida-Partido

- Já está? Óptimo, construam três frases que contenham uma palavra de cada coluna. E dessas, escolham duas para ler em voz alta para a turma.

Ao som do sangue a brotar, começou a chorar.

A vida controlada por um objecto? É um bocado ridículo por vezes, não?

Mensagens foram trocadas. O Coração bombeava sangue, cada vez que via o visor a piscar.

Depois de todos lerem as frases, tiveram uns momentos de intervalo. Nesse intervalo alguém deu a ideia do grupo criar um blogue. Ouviram-se as opiniões de cada um e ficou decidido que era uma ideia viável e como tal seguiria para a frente. No pouco tempo restante, alguns foram beber um chá outros simplesmente fumar. Quando voltaram todos aos seus lugares, foi dada nova “ordem”.

- Para variar, dez minutos e o texto deve acabar na forma: “Isto é porque nem toda a gente tem coração mas toda a gente telemóvel” e conter as duas frases que leram em voz alta.

No início da relação gostava dela. Sentir o seu cheiro e odor, tocar no cabelo, olhar para as palmas das mãos. Mensagens eram trocadas, o coração bombeava sangue mais rápido sempre que via o visor piscar, mas quando não era ela sentia-se mingar.
O tempo passou, o vermelho mudou para rosa que evoluiu para cinza. O contacto foi perdendo intensidade, até ao dia em que foi traído. O coração parou, ponderou que cor usar e escolheu o negro para encarnar. Saiu de casa desvairado, quis com a vida acabar.
Correu para um parque isolado e desolado. Ao chegar, tirou do bolso uma pistola e deu um tiro no peito. Ao som do sangue a brotar, começou a chorar.
Toda a história para dizer, nem toda a gente tem coração mas toda a gente tem telemóvel, para aos adultos brincar e o amor enterrar.

Muitas palavras ganharam corpo e forma ao serem proferidas. O som percorria as paredes da sala e ressoava nos ouvidos. Até surgir o último desafio, “jogar” o cadavre exquis (cadáver delicado), que consiste em criar uma frase colectiva, sendo que o jogador desconhece o que o vizinho escreveu anteriormente. Na aula fizeram-se quatro perguntas e consequentes respostas, porém estas eram respondidas em papeis trocados, aleatoriamente. Fica um breve exemplo:

- Se eu fosse magro?
Era livre. Sem amarras e raízes.

- Porque é que a escrita criativa é terapêutica?
Porque uso sapatos 42.

-Como é viver e morrer em Las Vegas?
Demasiado embaraçoso.

- Qual é a solução para o problema da estupidificação geral?
Mandá-las para o espaço.


Soaram gargalhadas ao ouvirem-se certas perguntas e respostas. A boa disposição reinava e a percepção que a aula chegara ao fim surgiu quando se proferiram as frases habituais. Porém houve uma pequena mudança, nesta última aula cada um teve o direito de tirar um post-it da parede e ficar com ele, porém a frase de balanço, devia inspirar-se nesse mesmo post-it.

· Hoje das 19.30-22...

Quis brincar ao vento e que o grupo continuasse a enfeitar-se de festa

Frase do post-it:

“- Qual é a solução para o problema da estupidificação geral?
Mandá-las para o espaço.”

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

No Mundo da Escrita Criativa, III





Entrou na sala, às caras conhecidas juntava-se uma nova. Alguém viera fazer um artigo sobre as aulas de escrita criativa e nada melhor que experimentar, para depois poder escrever. Os nomes já estavam memorizados, apesar de por vezes um nome se perder no meio do rebuliço geral.
A professora falou da plasticina e o objectivo seria moldar o que quiséssemos, como nos tempos de infância.
- Ao mesmo tempo, escrevam pensamentos que vos passem pela cabeça, à medida que moldarem.
O toque maleável da plasticina, o cheiro, faziam-no recordar as tardes de menino passadas a descobrir um mundo de cor e tacto. Ao mesmo tempo a mente ocupava-se com questões de Vida e Morte, de acontecimentos que se passavam em todo o planeta.
- Escrevam várias frases ou uma frase que depois se converta num pequeno texto que comece:

Com um pedaço...

de plasticina volto à infância, fabrico sonhos, respiro fundo e vejo.
Sinto algo maleável, dúctil que pode tomar infinitas formas, ter infinitas cores.
A minha bailarina dança ao som do piano que toca melodiosamente e velozmente. Ups! Cansou-se de tanto bailar, ficou deformada, infeliz mas manteve a dignidade à medida que acordes mais melancólicos soaram e o Fernando entrou.

À vez os textos foram lidos e para além da troca de opiniões habituais, foi proposto que se falasse da plasticina e das possibilidades que esta abria. Tanto a nível dos sentidos, como de recordações.
- Trouxe-vos este pequeno texto. Alguém quer ler?

"O Brincador"


Quando for grande, não quero ser médico, engenheiro ou professor. Não quero trabalhar de manhã à noite, seja no que for. Quero brincar de manhã à noite, seja no que for. Quando for grande, quero ser um brincador.
Ficam, portanto, a saber: não vou para a escola aprender a ser um médico, um engenheiro ou um professor. Tenho mais em que pensar e muito mais que fazer.Tenho tanto que brincar, como brinca um brincador, muito mais o que sonhar, como sonha um sonhador, e também que imaginar, como imagina um imaginador...
A mãe diz que não pode ser, que não é profissão de gente crescida. E depois acrescenta, a suspirar: “é assim a vida”. Custa tanto a acreditar. Pessoas que são capazes, que um dia também foram raparigas e rapazes, mas já não podem brincar.
A vida é assim? Não para mim. Quando for grande, quero ser brincador. Brincar e crescer, crescer e brincar, até a morte vir bater à minha porta. Depois também, sardanisca verde que continua a rabiar mesmo depois de morta. Na minha sepultura, vão escrever: “Aqui jaz um brincador. Era um homem simples e dedicado, muito dado, que se levantava cedo todas as manhãs para ir brincar com as palavras”.
(de José Álvaro Magalhães)

A leitura foi bastante expressiva, e surgiu a hipótese de falar da definição de trabalho e brincadeira. A troca de ideias foi intensa, as palavras fluíam animadamente e assim foi introduzido o primeiro texto da aula (o outro fora de aquecimento).

Quando for grande não quero ser

uma árvore. Uma árvore que criou raízes, folhagens verdes e frondosas, um tronco robusto; onde habitassem pássaros e lagartixas; desse sombra aos humanos que viriam descansar no meu regaço e fazer piqueniques.
Até podia viver mais de 150 anos, ser uma árvore centenária. Pronta a ser vista e admirada, mas para quê?
Não quero viver eternamente!
Não quero ser estático como a árvore!
Não quero criar raízes a esta terra!
Mas quero:
Ser as nuvens que passam no céu!
Ser as ondas do mar!
Ser o sol que aquece!
Ser o vento que sopra!

Para não fugir do registo habitual, houve textos fantásticos. E a conversa prosseguiu, desta vez sobre os verdadeiros escritores e de como pode funcionar o processo criativo.
- Diz-se que “todos os escritores devem ter um quarto de Brincadeira”, para poderem criar livremente. Mas a melhor metáfora que ouvi sobre o papel do escritor foi: “ Eu sou como o vendedor de sapatos, continuo a trabalhar até surgir a oportunidade de vender.”

O intervalo apareceu sem aviso, uma vez que o tempo voava tão depressa, que era impossível dar por ele a passar. Alguns aproveitaram para fumar, outros para beber chá e conversar, ou pura e simplesmente estarem silenciosos e ouvir.
Quando a aula recomeçou, percebeu-se que à semelhança do exercício dos postais da primeira aula, iria decorrer um com pedras e que o objectivo final seria a obtenção de palavras que permitissem construir um texto.
As pedras foram circulando uma a uma, de mão em mão dando uma volta completa.

- Uma lista branca no meio da escuridão

- Flores do deserto

- Um pedaço
negro e leve

- Concha laranja e translúcida à luz

- Rectângulo creme e branco salpicado

- Argamassa e um pedaço de mosaico, combinação estrondosa

- Cristais roxos, lembra-me
o coração de Barcelona, metade neste caso

- Negra, oval e picada

- Pedaço laranja, escorregas-me dos dedos

- És mais leve que aparentas e mais áspera também

- Creme e branco: gelado de café e baunilha

- Agora façam como na primeira aula e sublinhem palavras ou frases que vós despertem a atenção. Para além disso escrevam cinco cheiros que tenham presentes e escolham um deles, para o incorporar no texto.

- Café - Canela
- Mar - Bolo de chocolate quente
- Castanhas assadas

- Muito bem, então já sabem dez minutos a contar.

Sentado no meio da escuridão, deu por si a imaginar um coração, bem metade neste caso, a outra ficara em Barcelona.
Enquanto a metade do coração que estava presente batia, segurava um gelado de café e baunilha, a combinação de cheiro e sabor mais estrondosa. Ao mesmo tempo imaginava o deserto e sentia saudades do pó, do calor, dos grãos de areia, da paisagem repetitiva e monótona. Do negro e frio da noite, das estrelas no céu, a leveza do riso. Das pedras roxas, cremes, pretas e laranjas, translúcidas ou opacas. Da paz, da serenidade e do silêncio... e deu por si a acordar agarrado ao coração partido em dois.

O dom da voz nesta altura era fundamental, tanto para se ler o texto, como para poder comentar os dos outros elementos do grupo.

- Bem lembram-se da brainstorming de substantivos? Vamos fazer uma de verbos, de preferência digam verbos que não comecem por de.


- lutar - amar - jogar - sonhar
- respirar - brincar - asneirar - furar
- trabalhar - comer - proibir - fazer
- assoar - fumar - espirrar - cobrir
- morrer - sorver - acalmar - correr
- matar - descobrir - fugir - fornicar
- ler - sair - saber - suicidar


- Dessa lista, escolham oito deles e transformem-nos em verbos inexistentes:

- desrespirar - desproibir
- desbrincar - desfumar
- destrabalhar - desasneirar
- desfornicar - deslutar

- Optem por cinco para criar frases com o verbo conjugado, e leiam três delas para a restante turma:

- Quero que desrespires, pode ser que te ajude

- Desmatei-me a destrabalhar

- Pará de desbrincares, desse modo serás feliz

-
Desproibo-te de brincar com o perigo

- Desfumei este belo cigarro enquanto via o fumo ser soprado

Frases hilariantes foram ouvidas, gargalhadas sonoras demonstravam a boa disposição reinante e a percepção que a aula chegara ao fim foi dada pelas frases habituais.


·
Hoje das 19.30-22...

Destrabalhei alegremente e brinquei animadamente.


Frase do post-it:

“Sentado no meio da escuridão, deu por si a imaginar um coração, bem metade neste caso, a outra ficara em Barcelona.”

In Vinu Veritas

Numa cidade de um milhão sentiu-se sozinho. Sentimento curioso, tantas almas presentes e esta sentia-se só. A alma divagava, num telhado observava as estrelas, o céu, as nuvens, o vento seu irmão.
O vinho tornara-o introspectivo como um copo de tinto encorpado, denso em que o sabor das notas de madeira, baunilha e especiarias ainda não se tinham soltado o suficiente. Resumindo, sentia-se uma merda! Não podia negar… o seu “Dark Side” era poderoso, fazia-o duvidar de si e de tudo em que acreditava. O seu optimismo que era uma das luzes brilhava intermitentemente, parecia uma vela sujeita ao vento, medrosa, tímida, frágil como se o mínimo sopro fosse suficiente para a apagar.
Não sabia porque escrevia. Escrevia, pura e simplesmente. O vento uivava, sentia-o nas suas faces, na sua mão direita um copo de vinho, na esquerda um cigarro que não era mais que um meio de atingir uma morte mais rápida. Parecia um contra-senso adorava a vida, a nada dava mais valor, por isso sabia que a sua morte só ia chegar quando esta estivesse inclinada, a retirar-lhe o último sopro.
Pensava em países, inúmeros, incontáveis…no desejo de escapar, fugir, fugir para bem longe, no silêncio e no absurdo das palavras. Não que amasse o silêncio incondicionalmente, mas por vezes sentia que necessitava dele para não ser submerso num turbilhão. Excesso de barulho atingia-o, mesmo no telhado palavras feriam-lhe os ouvidos, enquanto o vento soprava nuvens que encobriam estrelas.
Ao mesmo tempo sentia-se um peso excessivo, impossível de suportar. Duvidava que fosse boa ideia estar presente, queria eclipsar-se, na hora em que a melancolia o invadia e os elementos do silêncio se transformaram no ombro que amparava.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

No Mundo da Escrita Criativa, II


Entrou na sala e olhou para as caras que já lhe eram familiares. Desta vez não seria necessário recorrer a profissões imaginárias, se bem que em certos momentos estas pudessem ser úteis, para recordar algum nome que se tivesse perdido.
A professora falou das flores e desta vez o objectivo, seria fazer uma flor com colagens, à semelhança do que acontecia na escola primária. Após dez minutos frenéticos.
- Escrevam as quatro frases, para cada um destes tópicos. Dessas dezasseis escolham uma, escrevam-na na flor e leiam em voz alta.

As
flores são...

Há flores que são....

Com flores...

Quero que as flores....


Desta vez as pobres mentes racionalistas deixaram de se interrogar. Dando um pouco de paz, aos corpos que as carregavam todos os dias, sem excepção. A professora continuava a marcar o ritmo:
- Vamos fazer uma brainstorming de substantivos. Digam todos os que vierem à cabeça, sejam eles físicos ou não, não interessa. O importante é termos uma grande quantidade.

Cada um e à vez ia dizendo os que se lembrava, a lista começou a aumentar, até ficar com este aspecto:

- mesa - gotas - relógio - creme
- solidão - credo - janela - mar
- quarto - como é que é? - ventoinha
- rua
- pescada - cheiro - gago - horas
- bola do Poder - paixão - chá - noites
- flor - ódio - caneta - ranho
- cor - alegria - papel - dança
- olhos - óxido - música - parabólica
- sol - ácido - raio - vento
- lábios - lua - chuva - furacão
- água


- Escolham sete substantivos da lista e escrevam uma frase que comece:

Escrevi a palavra:

- Solidão e fiquei na dúvida se era uma bênção ou uma maldição;

- Riso e lembrei-me desta sala;

- Paixão e lembrei-me que ela é necessária na nossa vida;

- Ácido e lembrei-me que há palavras mais destrutivas que o Ácido;

- Furacão e vi uma tempestade a formar-se ao longe e atingir-me;

- Lábios e lembrei-me da suavidade;

- Ondas e vi o mar, o vento, a areia...

-Dessas sete escolham três e leiam em voz alta.

As vozes ora mais graves, ora mais agudas soaram à vez. Enchendo a sala de sons que iam formando palavras.

- Para o texto devem escolher uma delas e desenvolvê-la como quiserem. O objectivo é que a frase apareça, inteira ou desconstruída. Têm cinco minutos, a contar.

Desta vez não houve surpresa, mas o tempo continuava implacável e o som das canetas a riscarem o papel fez-se ouvir.

“A maldição que o silêncio é às vezes faz-me desesperar. Querer ter alguém com quem falar, conversar, interagir e não a ter. Que raiva sinto! O desejar e não ter, o querer e não poder.
Mas bastou um segundo para ver a outra face do espelho. Estou rodeado e o som atinge-me como uma tempestade violenta, imerge-me e sufoca-me, faz-me querer dizer CHEGA! BASTA! Calem-se por favor, quero estar só. Ou melhor escrever a palavra solidão e pensar no que ela se pode tornar.”

Todos os textos foram lidos em voz alta. Para ele continuaram a existir alguns, com uma musicalidade extremamente apurada e a troca de ideias fluiu naturalmente.

- Vamos ouvir uma música da Mariza. Dividam um folha em duas colunas, numa escrevam palavras coloridas, noutra palavras sem cor. A ideia é ouvirem a letra e irem enchendo as colunas, com palavras da música.

- “Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(o nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

(de Alexandre O´neill)

As colunas iam-se enchendo, à medida que a melodia se repercutia nas paredes da sala, e nos ouvidos dos presentes.

Palavras coloridas
Beijam; Boca; Amor; Esperança; Poesia; Mar; Transportam; Amantes; Letra, Palavras
Palavras sem cor
Perde; Noite; Desgosto; Abandonado; Recusam; Silêncio; Morte

- Escolham uma palavra colorida e uma palavra sem cor. Escrevam duas frases, uma para cada.

A poesia é uma forma de expressão
A morte é fria

- Bem chegou a altura do intervalo, vamos aproveitar estes dez minutos. Vão até à rua e façam um exercício semelhante, substituam a música por palavras que leiam, oiçam ou vejam e tragam um quadro semelhante preenchido.

Desceram as estreitas escadas do prédio e desembocaram no largo Camões. Aí percorreram o espaço e as pessoas, ou simplesmente deixaram-se percorrer e o tempo passou rapidamente.


Palavras coloridas:
Clássica, Diesel, Milénio, Jazz, Rua, Norte, Arte, Livre, Pessoas, Beijinho, Diferentes, Verdade, Dancei, Comunicação, Descanso
Palavras sem cor:
Anos, Break, Nada, Dinheiro, Perdida, Frio, Roubar, Caixa, Estátua, Chão, Não me lembro, Pensar, Regras, Quebradas

- Muito bem, com estas palavras façam dois textos. Um em que usem apenas palavras coloridas e outro palavras sem cor. Têm dez minutos, e eu aviso-vos quando for altura de mudarem de texto.

O tempo não perdoava a mão ou a mente mais lenta. Tudo funcionava à lei do impulso e a tinta escorria e ganhava forma, preenchendo o papel.

Texto palavras sem cor

Apesar do dinheiro sentia-se perdido, olhava para o chão como se dele brotasse a solução dos seus problemas.
- Não me lembro em que momento isto me aconteceu. Mas ao recordar, cheguei à conclusão que as regras existem para ser quebradas.
Tinha roubado uma caixa, uma caixa cheia de dinheiro. Mas a consciência pesava como uma estátua de mármore e coração estava frio, gelado. Como aquela noite de Outono, em que cheirava a castanhas na Rua.

Texto palavras coloridas

O Jazz é um diesel que faz mover a imaginação
Dá-lhe Norte, tira-lhe o descanso
Movimenta-a livremente
Dá-lhe forma de comunicação.
As pessoas batem o pé, estalam os dedos
Seguindo o ritmo livre, em que a música
Muda as Ruas, como estas nos mudam a nós.


Textos voltaram a ser lidos. Sendo suposto tentar adivinhar se o texto, provinha da secção colorida ou sem cor. Por vezes enganos eram cometidos na avaliação e a boa disposição imperava.

- Vamos ouvir mais uma música, esta de Zeca Afonso. Para já quero que oiçam apenas.

- “Sete Fadas Me Fadaram

Sete fadas me fadaram
Sete irmãos me renegaram
Sete vacas me morreram
Outras sete me mataram
Sete setas desvendei
Sete laranjinhas de oiro
Sete piadas de agoiro
Sete coisas que eu cá sei

Sete cabras mancas
Sete bruxas velhas
Sete salamandras
Sete cegarregas
Sete foles sete feridas
Sete espadas sete dores
Sete morte sete vidas

Sete estrelas me ocultaram
Sete luas sete sóis
Sete sonhos me negaram
Aqui d´el rei é de mais
Sete setas desvendei
Sete laranjinhas de oiro
Sete piadas de agoiro
Sete coisas que eu cá sei

(de António Quadros)

- Tentem fazer algo parecido mas com um número à vossa escolha. Não interessa se rima ou não, apenas devem começar cada frase sempre com esse número.

Três minutos a contar
Três dedos a conversar
Três perguntas sem resposta
Três ondas sem dar à costa
Três guitarradas a soar
Três frases a destoar
Três mandalas por pintar
Três flores para recortar
Três dias sem luz
Três noites de escuridão
Três segundos de escravidão
Três pensamentos sobre o cuscuz
Três mistérios do escrever
Três respostas sobre o viver


- Para acabar só peço as duas pequenas tarefas. Escrevam uma frase que comece:

· Hoje das 19.30-22...

Ouvi falar de cor, sem cor de encontros imaginários e reais sem perder folhas.

E que neste post-it escrevam a vossa frase da aula, e a colem junto de todas as que já ali estão na parede.

“O Jazz é um diesel que faz mover a imaginação
Dá-lhe Norte, tira-lhe o descanso
Movimenta-a livremente
Dá-lhe forma de comunicação.”

CocoRosie - Beautiful boys

Antony :
Those, those beautiful boys
Those, those beautiful boys

Cocorosie :
Born illegitimately
To a whore, most likely
He became an orphan
Oh what a lovely orphan he was
Sent to the reformatory
Ten years old, was his first glory
Got caught stealing from a nun
Now his love story had begun

Thirty years he spent wandering
A devil's child with dove wings
He went to prison
In every country he set foot in
Oh how he loved prison
How awfully lovely was prison

Antony :
All those beautiful boys
Pimps and queens and criminal queers
All those beautiful boys
Tattoos of ships and tattoos of tears

Cocorosie :
His greatest love was executed
The pure romance was undisputed
Angelic hoodlums and holy ones
Angelic hoodlums and holy ones

Antony :
All those beautiful boys
Pimps and queens and criminal queers
All those beautiful boys
Tattoos of ships and tattoos of tears

All those beautiful boys
Pimps and queens and criminal queers
All those beautiful boys
Tattoos of ships and tattoos of tears

All those beautiful boys
Beautiful boys...
All those beautiful boys
Beautiful boys...

Those beautiful boys...

terça-feira, 11 de novembro de 2008

No Mundo da Escrita Criativa, I


Entrou na sala e sentiu um ambiente descontraído. O grupo era bastante heterogéneo, não havendo uma faixa etária dominante, antes várias faixas que criavam uma mescla entre a maturidade e a juventude.
A professora apresentou-se, falando da Mandala e de como esta seria importante, nos dez minutos que se seguiriam. O objectivo? Colori-la durante esse tempo, para deixar as preocupações do dia-a-dia de parte, relaxando as mentes menos descontraídas.
- Escolham uma das cores, com as quais pintaram a Mandala e escrevam quatro frases, para cada um destes tópicos. Dessas dezasseis escolham uma, escrevam-na na Mandala e leiam em voz alta.

O (cor escolhida) é...

Há (cor escolhida) que são....

Com (cor escolhida)...

Quero que (cor escolhida)....

Para as pobres mentes racionalistas estas pequenas tarefas, eram um pequeno contra-senso. Mas porque motivo estou a fazer isto, interrogavam-se. Sem contemplações, a professora ia debitando indicações:

- Agora cada um de vós, apresenta-se e escolhe uma profissão fícticia para os próximos minutos. De preferência fixem os nomes uns dos outros, se tal não for possível digam a profissão, quando se dirigirem a essa pessoa.

Passados curtos instantes, para além de dez pessoas comuns, existiam:

1 jardineiro
1 florista
1 cozinheira
1 ginasta
1 pianista
1 Chefe de Cozinha
2 bailarinas
1 Ilusionista
1 viajante

A risada e boa descontracção eram gerais, sendo o relaxamento o estado de espírito dominante.

- Temos aqui dez postais, a maior parte de quadros famosos. Gostaria que circulassem de mão em mão, e que escrevessem as primeiras palavras que vós viessem à cabeça, sobre cada um deles. O grupo impõe o ritmo, se estiverem a acumular postais estão a ser lentos; se os despacharem muito rapidamente, é porque estão demasiado acelerados.

Os postais foram circulando um a um, de mão em mão até darem a volta completa. Uma das pessoas foi escrevendo:

- O melhor de Klimt

- Dormia serena a dama cor-de-rosa

-
Estrelas no céu, iluminação na terra

- Três moinhos de vento, quem me dera ser como ele

- Istanbul, vermelho, azul, verde

- Venham cá que eu não vós faço mal...

- Lembra-me Miró, o “puto” artista

- Estrelas há muitas, pedras azuis também

- Vermelho na paisagem, beija-me amor

- Cores do mundo, traços de linearidade

- Já escreveram? Agora sublinhem palavras ou frases que vós despertem a atenção.

- Bem já todos sublinharam, não já? Então a partir de agora tem cinco minutos para fazerem um texto onde essas palavras apareçam.

A surpresa foi geral, mas o tempo era implacável. Triturava cada segundo sem remorsos, só se ouvindo o som das canetas a riscarem o papel freneticamente.

“Dormia serena, enquanto as estrelas no céu iluminavam a terra. Sonhava com o vento, gostava de ser como ele. Passar pelo globo terrestre, demorando-se um pouco mais quando se sentisse cansada.
Istanbul, Bucareste, Sófia... Europa, África, Américas, Oceânia e Ásia, queria passar por todo o globo, fazer 1,2,3..infinitos planisférios.
Ao mesmo tempo falar com as pessoas, venham ao pé de mim não vos faço mal, sou apenas o vento. Ver as pedras azuis, roxas, castanhas, amarelas, verdes. O vermelho na paisagem, as cores do mundo, traços de linearidade.
E no fim dizer beija-me Amor.”

Todos os textos foram lidos em voz alta. Havendo alguns excepcionais, pelo menos no entender dele. Palavras foram trocadas, ideias também e com esses momentos chegou o intervalo. Nesse intervalo enquanto a maioria das pessoas falavam umas com as outras, ele qual barata-tonta procurava uma folha sobre o bairro alto, onde se encontrava muita informação fragmentada. Infelizmente a busca revelou-se infrutífera, mas assim que a aula recomeçou a boa disposição voltou a invadi-lo rapidamente.

- Vamos fazer mais um pequeno exercício. Cada um rasga onze papéis e quando estes copos de plástico passarem à vossa frente, escrevem a primeira palavra que se lembrem relacionada com a que está escrita no copo. Deste modo e no final devem haver onze copos, cada um com onze papéis. Estes vão ser redistribuídos por todos, para que cada um fique com um papel de cada copo.

Os temas iam desde palavras compridas, curtas, passando por doces, dolorosas, acabando nas inventadas. Aqui fica um pequeno exemplo:


- Eu
- Tu
- Pena
- Azeitona
- Comprida
- Cáspite
- Água
- Sufocar
- Açúcar que derrete
- Sorriso
- Calipómia

- A partir de agora têm dez minutos para usar estas onze palavras num texto.

As canetas voltaram a ganhar vida, e o papel a gemer com o peso das mãos, que se agitavam velozmente. Parecia que estas tinham ganho uma vida própria, independente da mente que não fazia mais, que se deixar ir.

“Sufoco! Estou dentro de água. Não consigo sair. Estou perdido, tenho pena de mim! Pena? Ahahah, antes ódio por ter pena. Eu, tu, não tenhamos pena, antes ódio se não houver sorriso na Calipómia, que é como quem diz, a terra verde azeitona que habitamos.
Sinto uma cáspite comprida a enredar-me, estou perdido! Não! Estou salvo. Vou-me libertar do peso desta Calipómia que me oprime, que me esmaga, que me afasta do meu Eu.
Adeus!? Não! Até breve, para onde vou que é lado nenhum. O açúcar que se derrete, tornar-me-a mais doce também.”

Os novos textos voltaram a ser lidos à vez e as palavras foram ganhando voz e corpo ao sair de cada boca, que se abria e fechava numa sucessão ritmada e inconsciente.

- Bem, para terminar só peço mais duas pequenas tarefas. Que escrevam frases que comecem com forma:

Há dias em que...

- vivo
- sufoco
- rio
- pareço um robot
- sou mais eu
- mais irónico
- mais racional
- fantoche da mente
- alegre
- que me borrifo para os outros
- que quero fugir
- quero falar
- quero ouvir
- quero o silêncio
- quero o barulho

E que neste post-it escrevam a vossa frase da aula, e a colem junto de todas as que já ali estão na parede.

“Vermelho na paisagem, beija-me Amor.”

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Neve em Bagdad

Saiu do avião, e aspirou a brisa quente que corria sobre as terras de Zaratrustra. Era Inverno. Para ele como se estivesse no pico do Verão, naqueles dias em que temos de ir ao fundo de nós para vencer a inércia, que nos petrifica a existência.
Hordas de taxistas rodearam-no, queriam à força levá-lo para o centro de Bagdad. A muito custo conseguiu furar entre a multidão, chegou junto do amigo, que o esperava de braços abertos e sorriso nos lábios. Antes de pronunciarem uma palavra, abraçaram-se efusivamente, dando palmadas vigorosas nas costas, como se cada pancada provasse ao outro que estavam realmente juntos.
Dirigiram-se ao carro em passo rápido e elástico. Acomodaram a pouca bagagem do recém-chegado e partiram para os arredores. Após as primeiras palavras banais semi balbuciadas, começaram a falar de um modo um pouco agressivo. Parecia que a paisagem que os rodeava, transferia para o carro toda a sua energia. E aquelas manifestações iniciais, não passavam de uma mera máscara, que podia funcionar noutros locais do planeta, mas não aqui. Não em Bagdad!
- Então, o que te traz cá?
- Inscrevi-me numa ONG, tenciono ajudar na reconstrução do Iraque.
- És louco. O tempo vai-se encarregar de acabar com o teu idealismo.
- És sempre o mesmo pessimista, qualquer que seja o projecto em que te envolves. Afinal porque é que vieste?
- Muito simples. Para garantir que o meu governo ganha o suficiente com esta guerra, para contrabalançar a péssima imagem que deixamos na ONU e todo o dinheiro empenhado no esforço militar. Como sabes, as nossas reservas petrolíferas estão a acabar e para além disso, há que expandir o nosso poder.
Enquanto o amigo proferia este discurso elaborado e repetido, aquele pedaço de terra dramática e torturada, desfilava como pano de fundo. As pessoas, mães, pais, filhos que sofriam como ninguém o peso do conflito, provocaram-lhe inicialmente comoção e depois uma raiva crescente, que não parava de aumentar, a cada quilometro percorrido, a cada face, a cada olhar.
- Mercenário! Não passas de um reles funcionário de governo, que só vê cifrões à frente. Que desilusão, conheço-te há muitos anos, mas nunca esperei isto de ti.
- É assim o mundo capitalista em que vivemos. Ou fazes parte da máquina, ou és triturado por ela.
- Então prefiro ser triturado por ela! Deixa-me aqui!
- Não sejas idiota. Estás num cenário de guerra, caso tenhas resolvido ficar na ignorância nos últimos anos.
- Não me interessa. Como te disse, antes ser torturado ou assassinado, do que pactuar contigo. Tens as mãos sujas de sangue, deste conflito hediondo.
- Muito bem, como queiras. Não digas que não foste avisado. Ainda vais engolir as palavras que proferiste.
O carro parou no meio de um bairro, parcialmente destruído. Tirou a pouca bagagem que tinha e bateu com a porta estrondosamente. Viu o “amigo” gesticular freneticamente e a partir prego–a–fundo, deixando atrás de si uma nuvem de fumo.
- Foda-se, tanta estupidez concentrada numa pessoa, incrível. E eu que o conheci, numa altura que ambos defendíamos os mesmos ideais. Que lavagem cerebral lhe fizeram.
Começou a percorrer o bairro melancolicamente, reparando em pouco ou nada. Olhares interrogativos, indiferentes, curiosos, cheios de ódio, desfilavam na cara daquele povo. Até que um primeiro iraquiano o abordou. Estancou abstracto, e nas poucas palavras que consegui pronunciar, disse que estava perdido, que não tinha muito dinheiro, mas que o daria se alguém o ajudasse. Passados uns momentos, apareceu um segundo iraquiano que passava de mota.
- Não tenho nada contra ti. O teu povo, acabou por salvar-me a mim e aos meus irmãos da opressão. Mas aconselho-te a saíres deste bairro comigo, estás num bairro de maioria sunita e como deves saber, não és muito popular.
- Estou nas tuas mãos, leva-me para onde achares que é mais seguro.
- Aqui não existem locais seguros, mas vou levar-te para minha casa.
- Obrigado, não sei como agradecer.
Os seus olhos começarem a brilhar e quando deu por si, parecia uma criança pequena a chorar. Todas as emoções das últimas horas abateram-se sobre ele e a fuga foi o choro. Subiu para a mota e arrancaram. Andaram cerca de 40 minutos (para ele poucos segundos) e quando desapearam, viu que estava numa zona residencial, menos destruída. Com um pouco de imaginação, via flores e jardins, mas ao menos via pessoas na rua e crianças a correr.
- Aqui estás mais seguro, esta é a outra margem do Rio Tigre. Mais pacífica, sem tantos atentados e banhos de sangue, onde as pessoas, apesar de todas as privações, tentam viver a sua vida o mais dignamente possível.
- Antes de vir, informei-me sobre a situação actual mas não me guiei pelos noticiários, porque esses, obviamente, só falam dos atentados, número de mortos, desmembrados, etc...
- Os noticiários iraquianos são iguais. Só mortes e mais mortes, acho que existem alturas em que não me sinto humano. Se não fossem os meus filhos, acho que não passava de um robot.
Os miúdos corriam na rua alegremente atrás de uma bola de trapos, a mulher notava-se que estava grávida, esperava-os na ombreira da porta. Inesperadamente, pelo menos para ele, não começou a gritar com o marido, antes calmamente apontou, como se pretendesse saber quem era, e o que estava ali a fazer. Descalçaram-se e entraram na habitação, uma humilde casa de rés-do-chão com duas divisões. Uma era um misto, sala-cozinha; a outra, um quarto para o casal e para os dois filhos, separado ao meio por uma cortina.
Sentaram-se no chão, numas almofadas, de pernas cruzadas e serviram-lhe um chá. De olhos fechados, sentiu o odor que se depreendia da superfície, saboreando aquela frescura da menta. Quando voltou a abri-los, os filhos do casal estavam especados a olhar para ele, com aquela curiosidade infantil, e o sorriso cândido.
- O que te trouxe a Bagdad, e porque motivo estavas naquele bairro?
Contou-lhe toda a história, que o levara desde o seu país até ao momento em que fora encontrado no bairro. Quando acabou a descrição, ficou calado a meditar sobre as suas opções para o futuro. Sentiu que não podia ficar naquela casa indefinidamente, apesar da boa recepção, sabia que estava a ser um peso excessivo. Por isso, decidiu na próxima manhã dirigir-se à ONG e falar com os responsáveis para saber qual o papel a desempenhar no futuro.
- Agradeço tudo o que fizeste por mim. Toma este dinheiro, não é muito mas é tudo o que tenho de momento. Apenas te peço que amanhã me digas como chegar à ONG.
- Para nós é muito dinheiro, não posso aceitar. Alá diz-nos que devemos ser caridosos, para os mais fracos e desprotegidos. Naquele momento eras o mais fraco, não fiz mais que a minha obrigação.
- Aceita, por favor. Pela tua mulher, pelo teu filho que vai nascer, se não o fizeres por ti, fá-lo por eles.
- Se pões assim a situação, aceito. Mas imponho a condição de amanhã levar-te.
Sentou-se no limiar da entrada e acendeu um cigarro, oferecendo outro ao seu salvador, o sol descia sobre a linha do horizonte, espalhando tons rosa-alaranjados. A temperatura continuava elevada e bandos de pássaro esvoaçavam no céu.
- Anda, vamos jantar. Amanhã é um novo dia.
O jantar trouxe-lhe sabores exóticos, apesar de não haver muita variedade, a comida estava cheia de sensações. Comeu com imenso prazer, e sentiu que o cenário apesar de negro, não era tão escuro como o Ocidente o pintava.
No dia seguinte, ainda o sol não tinha nascido, já estavam a caminho. Ruas quase desertas patrulhadas por blindados dos EUA que, apesar de todas as normas de segurança, não os chegaram a interpelar. Chegaram ao edifício da ONG, e aí sim, a 100 metros de distância já havia uma zona delimitada de segurança, cheia de arame farpado e soldados a bloquear a entrada. Apearam-se da mota conforme lhes mandaram, entregaram o passaporte e o documento que comprovava que realmente ele era um membro da organização. O iraquiano não pôde entrar, e no meio de tanto preconceito, deram um abraço sentido, um abraço de verdadeiros amigos, irmãos de coração.
Entrou e ficou à espera de ser atendido por algum superior. Como chegara a horas impróprias, teve que esperar num corredor, onde acabou por adormecer. Já passava das 8 horas quando alguém lhe deu um toque no ombro, e disse que podia entrar para o gabinete. Acordou estremunhado e lá se arrastou, pronto a ouvir e a obedecer às ordens que recebesse.
- Bom dia, sente-se. Antes de mais quer um café? Água? Chá? Saiba que é um prazer recebê-lo na nossa organização. Um activista como você, já com créditos firmados, confesso que fiquei um pouco surpreendido quando falou comigo a voluntariar-se.
- Não vejo porque motivo tanta surpresa, sou um homem de causas. Acredito que certas acções podem mudar o mundo em que vivemos. E quantas mais pessoas puxarem no mesmo sentido, melhor. Confesso que estava um pouco cansado de ser activista no meu país, sentia-me longe da frente, longe dos problemas, enfim, um inútil.
- Não diga isso! Você é de longe dos activistas mais valiosos que existem espalhados pelo planeta. A comunicação social adora-o, as pessoas, as massas ouvem-no com deleite. Digamos que tem uma aura de credibilidade e carisma inigualáveis.
- Seja. Agradeço os elogios, mas gostava de saber em que posso ser útil. Sinto-me motivadíssimo para entrar no terreno, dar o melhor de mim para tentar melhorar a vida das pessoas deste país.
- Bem, muito sinceramente, apesar de chegar hoje ao Iraque, gostava de fazer de si o meu braço direito. Ficaria responsável pela zona Bassorá, que é uma zona extremamente complexa, mas acredito que com as suas qualidades é a melhor pessoa para o posto.
- Muito bem. Quando devo partir?
- Se não se opusesse, gostaria que viajasse hoje mesmo. Ainda é um desconhecido, isso é uma vantagem. Vamos aproveitar, assim pode viajar incógnito como qualquer pessoa comum. Vai partir às 2 da manhã da estação de autocarros e faz a viagem durante a noite, que lhe parece?
- Perfeito. Isso quer dizer que tenho o resto do dia livre, não?
- Sim, mas por razões de segurança não quero que saia do edifício. Quanto menos pessoas o virem, melhor. Aproveite para descansar, começar a ler os dossiers...
O dia passou sem grandes novidades, foi-se arrastando. Sentia adrenalina pura por estar prestes a realizar a maior obra da sua vida, só esperava pelo momento de chegar a Bassorá. Por volta da meia noite, foi escoltado até à estação dos autocarros, aí 100 metros antes, abandonou a formatura, tentando denunciar-se o menos possível. Comprou o bilhete e aguardou a hora de embarcar.
O autocarro acabou por atrasar-se, nessa altura fazia frio, muito frio em Bagdad, parecia que alguém tinha mudado a latitude da cidade. Finalmente, o autocarro chegou e as pessoas começaram a entrar e acomodar-se nos assentos. Quando finalmente ia pôr o pé no degrau, o motorista sem aviso prévio fez-se explodir. Chamas deflagraram em todas as direcções, o autocarro foi completamente reduzido a sucata. Um fumo espesso negro subia, ao mesmo tempo que flocos de neve começaram a cair pelo céu de Bagdad.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Os tesouros da Dona Aldina


Para os lados da casa de Fados Luso, existe a Mercearia do Sr. António, a mais antiga do bairro, garante uma freguesa.
Nesse local e à vista de todos, encontra-se muitas vezes um dos tesouros mais bem guardados de Lisboa, a Dona Aldina. Alfacinha de gema, vive há 78 anos no Bairro Alto (quase tantos como os que tem de existência). O olhar humedecido transmite uma alegria infantil, e o rosto uma personalidade calorosa e comunicativa. Com a voz alegre e contagiante, conta histórias que nos transportam para o passado do bairro, da cidade e do país. Ficando-se com a sensação que olhamos a história nos olhos e lhe escutamos a voz.

Começa por relatar-nos momentos do presente, em que o bairro já não é como foi, muito barulhento e sujo devido aos bares que se multiplicaram como copos. A tristeza pelas vizinhas, que quase desapareceram. O gosto de ir à mercearia, falar com as pessoas que a frequentam. Ao passar este momento inicial, e ganhando mais confiança começa a abrir o baú da memória. Pequenos fragmentos de luz da história do bairro saem lentamente: as varinas, as prostitutas e os marujos, os talhos, as famílias, as escolas, as tavernas, as crianças e os boémios. Até que subitamente, e devido ao Grémio Lusitano, surge uma revelação mágica.
Os seus bisavós tinham uma taverna, na Rua Luz Soriano número 19, que era frequentada por poetas, pintores, escritores e até pelo próprio Rei D.Carlos e pelo príncipe herdeiro. Como muitas vezes o destino gosta de pregar partidas, um dos filhos do casal, o mais velho, na mocidade fora maçon. E na sua casa fizeram-se reuniões secretas de maçonaria, onde os presentes se encontravam sempre de cara tapada, de modo a esconder a identidade. Em certo momento, foi-lhe oferecida a “honra” de assassinar o rei, acabando por recusar a proposta.
O seu interlocutor manifestava uma expressão de enorme surpresa, só pensado na sorte e fortuna, de ouvir ao vivo um relato tão singular. Com o melhor dos modos, acabou por ajudá-la a transportar as compras para casa, e decidiu passar pela Rua Luz Soriano.
O que viu, deixou-lhe a certeza que o tempo tudo transforma, e se não forem as pessoas a contar muitas vezes as histórias das pedras, não serão estas a contar-nos a história dos homens.



segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Irrealidades


Acordou a meio da noite, com uma sensação de falta de ar. A respiração ofegante, o coração acelerado, a cabeça parecia que ia rebentar. Acendeu a luz do candeeiro que estava na sua mesa de cabeceira, olhou em volta, e o que viu deixou-o siderado.
O local onde estava não era o seu quarto, apenas a mobília, mas em vez das quatro paredes que esperava encontrar, viu-se no meio do vazio com a mobília suspensa no ar.
Esfregou os olhos freneticamente, beliscou a sua pele, mas nada se alterou. O pânico começou a dominá-lo, suores frios começaram a escorrer, pela sua testa e face, porém ao tentar passar o braço para limpar o suor, mordeu os lábios com tanta força para não gritar, que um fio de sangue começou a escorrer lentamente.
Esse grito de desespero morreu dentro de si, e começou a chorar. As lágrimas escorriam pela sua face sem poder ampara-las com as suas mãos, com os seus dedos, pois onde momentos antes havia pele, tendões, veias e sangue, agora apenas havia fumo.
Os seus dedos, e mãos mantinham a antiga forma, mas agora não passavam de fumo, um fumo suave, branco e aromático, que se entranhava no olfacto e inebriava os sentidos.
Tentou levantar-se, apesar do caos que reinava dentro de si. E como racionalista puro que era, tentou chamar-se de volta ao país da racionalidade.
-Calma, respira fundo. Isto não é real, tudo não passa de um pesadelo. Brevemente vais acordar, e verás que tudo voltou à normalidade (disse para si mesmo em voz alta e vibrante).
Pousou os pés no vazio, com um medo tremendo de ser absorvido por aquela massa que o rodeava. Mas estranhamente essa massa comportava-se fisicamente de um modo sólido, e assim conseguiu andar como se pisasse o soalho de madeira do seu quarto. Ao olhar para o espaço circundante, não encontrava pontos de referência, para além da sua mobília, e começou a andar ao acaso.
Nada fazia sentido, sentia-se cada vez mais perdido, mais desesperado, mais revoltado com toda aquela irrealidade. E a sua mente que era um mecanismo perfeito, de frieza, racionalidade e serenidade, começou estranhamente a ser afectada.
Os pés começaram a mover-se, sem a mente os comandar, o coração batia descompassadamente e deixou de pensar. Andou, andou até deixar de sentir sensibilidade nas pernas, frio ou calor, cansaço, fome ou sede, e o tempo perdeu o significado temporal do mundo dos homens, dos segundos, minutos, horas, dias, meses, anos.
Não soube durante quanto tempo andara, até voltar a si lentamente. E nunca como até ai sentira o seu ser, a sua essência, com tanta intensidade. Sentiu pela primeira vez que a sua mente já não o comandava, que já não era apenas um simples fantoche, um refém da sua mente, mas sim um ser iluminado. Olhou para as suas mãos e o fumo desapareceu, passou-as pela face e chorou com a pura alegria que o invadia.
A palavra irrealidade deixou de fazer sentido, misturou-se com a realidade, deu-lhe uma nova dimensão. Uma dimensão nunca antes sonhada ou sequer percepcionada, onde todos os sentidos se misturavam num único feixe de luz interior, fazendo do mundo, o local pelo qual aguardara toda a sua existência.