sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Pequenas crónicas de Barcelona


Alquimia da Cozinha


Qualquer pessoa que goste de culinária é um apaixonado pelos aromas e sabores. Primeiro deve conhecer os ingredientes “puros”: a frescura dos vegetais, das frutas, dos peixes e moluscos; a textura, cor e gordura das carnes; o sabor das especiarias; o discernimento na escolha de produtos de qualidade. Com todos os elementos ao seu dispor, tudo é uma questão de química e de experiência, bom senso na protecção de antigas tradições e inovação na criação.
A cozinha transforma-se assim num estúdio criativo, num laboratório onde cozinheiro é um mago, um alquimista que depois depois de conhecer todos os elementos, os molda e os trabalha com a química. O verdadeiro mestre do tempo e do espaço, criador da magia de libertar sensações .


Tavernas e Bares Trendy


Cidade de contrastes. Bares trendy e sofisticados coexistem lado-a-lado com velhas tavernas, que ainda guardam no seu interior antigas tradições.
Desde a champanharia com as suas “cavas”, os presuntos e o bacon no tecto, os longos balcões de madeira e mármore, e as pessoas, inundações de pessoas. Passando pelo El Rabipelao, um bar de cento e sessenta anos em que se pode ver o passado, o presente e o futuro num copo de rum, limão, hortelã e gelo derretido e podem surgir mãos mais leves nos bengaleiros. O Ovelha Negra, cuja entrada se assemelha a masmorras da Idade Média, mas onde no seu interior fervilha a vida de multidões em enorme mesas e bancos corridos, regadas por jarros de cerveja e sangria. A taverna dos espelhos baços, cheia de fumo e cujo interior abriga um templo de absinto, na zona de El Raval e uma pizzaria com o interior graffitado, com uma escolha infindável de combinações de ingredientes e cervejas médias.
Todos espaços vibrantes, pulsantes e pujantes, perfeitos para uma refeição animada, ou beber um copo rodeado de amigos e desconhecidos, no coração da cidade.

Quando o Banco é Casa

Dirigia-se para um MB, precisava de levantar dinheiro para pagar as dívidas que vinha a acumular nos últimos dias. De passagem pela entrada do banco, notou que no interior estava um mendigo deitado, quem sabe para se proteger do frio. Na rua pessoas faziam filas para a única caixa disponível, mas ele não conseguia libertar a mente daquela imagem: o mendigo, deitado no chão com as suas roupas esfarrapadas, com um cobertor e uma garrafa de vinho como companheiros e em que o calor do ar condicionado lhe dava mais conforto, naquela noite de Outono.
Pensava se algum dia teria que dormir em local semelhante, imaginava-se como um ser livre e sem posses, não necessariamente um mendigo ou um ser mal-tratado pela vida. Apenas alguém a quem os meios materiais deixaram de interessar, subjugados por algo maior, mais puro, mais difícil de concretizar e atingir: a liberdade total, a libertação do peso do mundo e o movimento do vento.


Skates e MACBA

A fachada de vidro, metal e branco surgia à sua frente. Para trás uma sucessão de ruas relativamente estreitas, onde a luz do astro maior não conseguia chegar, não faziam esperar o desembocar naquele espaço amplo, harmonioso e luminoso. Templo onde o skate e cultura conviviam lado a lado como irmãos.
Pum! Pum! Schrrrrrrr! Eram os sons mais ouvidos, o som do impacto das tábuas a bater no solo, o som das rodas a deslizar sobre a superfície rugosa. O movimento era incessante, desde manhã à noite aquele espaço respirava movimento, pulsava energia. A concentração de pessoas que andavam de skate, ou simplesmente se juntavam em grupos a beber cervejas ou a fumar uns charros e a conversar, transmitia um ambiente livre de preconceitos. Tudo isto lado a lado com um museu de arte contemporânea faziam daquele local, a fusão perfeita entre a cultura transmitida pela arte e a cultura transmitida pelo movimento urbano.



Magia: Erasmus

Mudam-se as coordenadas da vida: país, língua, cultura por um período mínimo de seis meses.
Abrem-se novas experiências, alargam-se horizontes, uma nova visão é despertada.
Goza-se de um conhecimento mais vasto, de uma transmissão cultural, de um alargar da esfera pessoal.
Infinito espaço de confrontação de ideias ou ideologias. A flexibilidade e capacidade de adaptação ocorrem naturalmente.
As argumentações sucedem-se, o debate cria uma opinião mais sólida, mais tolerante, mais abragente.
Estreitam-se laços com pessoas de diferentes nacionalidades, origens, pontos de vista.
Riso e alegria, boas sensações e vibrações.
A bola de neve cresce progressivamente e cria um efeito maior, uma vida maior.
Surgem por vezes saudades da família, dos amigos, da língua, do país.
Musicalidades urbanas invadem os sentidos, tornam-nos ébrios e loucos.
Um mundo dentro do Mundo: oportunidades, amizades, sonhos e ilusões.
Sentimentos florescem, morrem, multiplicam-se ao ritmo da vida que segue o seu curso.


Destino: Aeroporto

Sete da manhã, em plena avenida de Roma, tentava apanhar um táxi para o aeroporto. Pensamentos soltos surgiam e desapareciam no mesmo ritmo inconstante, porém um ténue fio ligava-os e dava-lhes sentido. Esse fio era o nome do destino, o Aeroporto.
No imaginário surgiam imagens desse espaço, um local de partidas, chegadas e permanências. Fragmentos de trabalho, férias, prazer, tédio, alegria e infelicidade, sorte ou azar. Diferentes pessoas, diferentes destinos. A cada face, a cada olhar, maneirismos e indumentárias, uma tentativa de perceber qual o papel que representavam no palco principal.
Aeroportos, terminais de autocarros, portos e estações de comboio são espaços onde se cruzam todos os sonhos, todas as profissões, todas as vidas. Porém a percentagem mais elevada de sonho está ligada à rapidez de saltar de cidade em cidade, país em país, continente em continente.
Por outras palavras, a rapidez que o aeroporto oferece num mundo cada vez mais imediato e veloz, nem que seja por um período fugaz. Mudar a latitude e a longitude, com o objectivo de alterar as coordenadas da vida.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A Casa Mágica

A alma do mundo está onde os olhos a encontram. Manhã de Novembro, sete e quinze no alto do Sol nascente, na casa mágica do Sol nascente. É uma casa no coração do Alentejo profundo, nela coexistem todos os sons vivos do Universo: pardais, cigarras, cucos, ovelhas, cães, bois e bichos. São desígnios da paz que ali mora.
A casa está cheia de magia, decorada por pedras e árvores no colo das montanhas espanholas que a namoram há milhões de anos. Quando chega a esta casa percorre mil vezes os seus contornos, mergulha na sua beleza, vê-a, ouve-a e ama-a. Quere-la para si, num tempo sem horas, fica. Quer saciar-se dela. Silenciosa e pacificada, sorve-la com paixão ardente de desejo e tristeza porque não a pode possuir.

(22-11-2008)

Era uma casa secular erigida na terra, entre montes e ravinas. Respirava harmonia. Todos os dias se lava de seiva, a sua força milenar renova-a todos os dias. Nela habitam vida e morte, mas isso não a perturba. Ela é essência que se deixa habitar e nessa posse ela é renovada, todos os dias. Por isso ela é feliz, no dar que recebe, na partilha que se expande e na benevolência que transforma. Todos passam, só ela permanece.

(25-11-2008)

Autora:AM

O silêncio só de ontem

Entrou devagarinho, como quem não pode despertar os mestres. À sua recepção, silêncio, doçura e muito pó, tanto que tapava todas as superfícies visíveis. Mas o seu ego não contestou, recriminou ou mal disse.
Nessa casa antiga, todas as banalidades são para respeitar. Começou a varrer aberta ao sujo, que naquele lugar não era sujo. Era simplesmente pó. Muito pó. A sua ausência de muitos tempos, que lhe dava as boas vindas. Sorriu, agradeceu e sentiu-se na sua verdadeira casa, a casa da ausência.
Viu e tocou nas bolotas secas, achou-as lindas mas tristes. Olhou os ramos de azeitonas mirradas e as romãs empedernidas. Remirou os vestígios e tudo o que viu disse-lhe sim. Que eram como ela, diferentes do que tinham sido, mas eram os mesmos, só que transformados e resistentes.
Começou a varrer, mas penalizada por ir destruir aquelas miragens que tinham crescido para ela e que a saudaram com total devoção quando chegou. Eram as suas ramificações. Ao limpar a casa pediu desculpa por destruir as suas roupagens e os seus corpos. Afinal era uma intrusa naquele lugar de bichos, mas não sentiu raiva nem desânimo, ou desespero naquela casa que tanto amava mas onde o lixo se tirava com a pá.
Estava pacificada e limpava com amor e alegria, naquela sexta feira de solidão a mulher perguntava.
- O que tinha aquela casa, que tanto lhe dava?
Perguntou à lua que espreitava, mas a lua não disse nada. Perguntou à aragem e a resposta? Talvez paz!? Sim a casa tinha paz.
A mulher limpava e quanto mais limpava, mais bonita a casa ficava. Era noite tardia e veio um gato sondar…lavou e limpou. Agora a casa sorria e estava de novo jovem e bela.

Autora: AM

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Surrealismos


Imagem em : bp0.blogger.com/.../s400/AMBULANCIAS3.jpg

- Estou com dores no peito! Aiiiiiii, que dor tão aguda! Não consigo respirar! Por favor liga para o número de emergência, rápido!
- O quê? Que dizes? Só podes estar a brincar, mas não tem piada!
- És mesmo estúpida! Qual brincar?! Liga imediatamente acho que estou a ter um ataque cardíaco.
A mulher entrou em pânico e em plena histeria ligou. A chamada foi super-stressante, mas a custo lá conseguiu dar a morada e descrever os sintomas dos quais o marido padecia.
Menos de cinco minutos volvidos e entravam-lhes pela casa uma equipa de emergência médica, com uma maca e uma mala com os primeiros suportes de vida. Estabilizaram-no, meteram-no na maca e seguiram para a ambulância. Lá dentro o condutor tentava a todo o custo, contactar com um dos vinte sete hospitais centrais da cidade. Como o mais próximo do local onde se encontravam não dava uma resposta positiva, começaram a dirigir-se para o seguinte. Quando lá chegaram, não os deixaram tirar o paciente da ambulância dizendo-lhes que não tinham espaço disponível para o receber.
Foram seguindo a viagem pelo purgatório de Paris, que aos poucos foi-se revelando uma viagem pelo inferno. A cada paragem desesperada a mesma resposta lacónica.
- Sentimos muito, não temos espaço.
E a qualquer tentativa, de argumentação.
- Mas este é o décimo hospital que vimos!
- Sinto muito, regras são regras! Não se preocupe, há-de encontrar algum que o receba.
Aos poucos a situação clínica, foi-se instabilizando. A ambulância apenas tinha suporte de vida para algumas horas, não estava preparada para uma situação daquelas. Os paramédicos desesperavam, tentavam a todo o custo fazer o melhor que conseguiam na difícil situação em que se encontravam. O condutor já tinha dificuldade em conduzir, tal já era o stress que estava a acumular. Passadas três horas já só conseguia articular.
- Merda! Merda! Merda! Ele vai morrer aqui! Tão-se todos a cagar para nós!
Qual profeta, o paciente acabou por sucumbir passadas seis horas dentro do único local que o recebeu e lhe deu esperança de poder voltar à vida.

Texto baseado na notícia:

“ Paris, 30 Dez (Lusa) – Um homem de 57 anos, que sofreu um ataque cardíaco nos arredores de Paris, sábado, morreu depois de ter esperado seis horas por falta de espaço num serviço de reanimação, em plena polémica sobre a falta de meios nos hospitais franceses. (Jornal 2- RTP)”

O Menino de Gaza


Imagem em: www.rtp.pt/.../images/articles/379700/gazahp.jpg

Acordou estremunhado, com a mãe a chama-lo para o pequeno-almoço. Ainda nem o sol tinha nascido e este menino já se lavava e vestia para ir para a escola. Dias de Gaza não se compadecem com quem lá vive, duros e áridos como a paisagem, afiados como o aço das bombas, rockets, balas que são projectadas.
- Arafat já rezaste? Só podes começar a comer depois de rezar.
- Ó mãe, mas não é justo! O papá já está a comer e as manas também.
- Isso foi porque já rezaram...vá não faças birra e reza!
Arafat contrariado levantou-se, virou-se para Meca e começou as suas orações. Este era o filho mais novo do casal e o nome tinha-lhe sido dado em homenagem ao carismático líder Palestiniano.
- Já posso começar a comer agora!?
- Não sejas impertinente, sabes bem que podes.
Após o pequeno-almoço, recebeu um saco com o almoço, pegou na mala, despediu-se da família e dirigiu-se para casa do seu amigo Said (com que seguiria para a escola). O sol começava a nascer e o dia ia ganhando tons mais suaves quando deixaram a casa de Said, a discutir quem era o melhor jogador de futebol do mundo.
O bairro deles foi ficando para trás e aos poucos aproximavam-se de zonas mais destruídas. Buracos de balas e morteiros eram vísiveis em vários edifícios, carros carbonizados, ruas cheias de entulho e arame farpado, eram as marcas de uma zona massacrada por um conflito de seis décadas. Quando passaram o primeiro posto de controlo montado pelos soldados israelitas (uma vez que a escola estava situada no lado judaico da faixa de Gaza), discutiam de maneira tão acalorada qual o melhor Messi ou Ronaldo, que até os soldados se riram.
As horas do dia foram sendo desfiadas lentamente. De manhã aulas sem interrupções, apenas uma paragem já próxima do meio-dia para rezar e almoçar. A tarde essa, iniciou-se com a leitura do Corão, prosseguiu com escrita, paragem para rezar e acabou com o tradicional jogo de futebol com bola de trapos. No caminho de regresso já não havia discussão acesa, estavam ambos exaustos e só pensavam em chegar a casa e descansar. Antes do jantar ainda houve mais duas orações, trabalhos de casa e finalmente um pouco de tempo para brincar.
A família estava finalmente reunida à mesa, a comer animadamente quando se ouviu um primeiro estrondo. Um barulho ensurdecedor atingiu-os como uma onda de choque violenta, pela janela viram uma luz avermelhada e chamas a deflagrarem pelo céu da noite, que agora era menos escura.
O pai gritou de modo a fazer-se ouvir:
- Todos para o vão interior do quarto! Afastem-se das janelas e mantenham-se unidos!
A família correu para o local e os seus corpos que tremiam juntaram-se, de modo a protegerem-se uns aos outros. Porém de nada lhes serviu, passados poucos minutos o prédio foi bombardeado, incendiou-se e começou a desmoronar-se. Felizmente para eles passaram a ponte para o outro lado, quando um primeiro fragmento de calor e luz os atingiu e o pai ainda conseguiu articular.
- Foi uma estrela cadente meninos, Alá ofereceu-nos o ouro do céu...



Texto baseado na notícia:
“A aviação israelita voltou hoje a bombardear vários sectores do enclave palestiniano da Faixa de Gaza, no segundo dia de uma ofensiva que já provocou 280 mortos e 620 feridos.” (site da RTP)

O minuto com 61 segundos



Imagem em: www.wallpaperbase.com


O space shuttle dirigia-se para a Terra a toda a velocidade, os escudos térmicos estavam accionados e começava a ver-se a incandescência das ligas metálicas devido ao atrito. Os astronautas estavam ansiosos pelo regresso, afinal a missão já contava com seis meses e a vida no espaço apesar de toda a beleza, desgastava pela monotonia.
Pelos elaborados cálculos matemáticos estaria para breve a entrada na órbita terrestre, subitamente os computadores recalcularam a trajectória e deram o sinal de alerta. Alarmes soaram tanto a bordo, como na agência espacial internacional e gerou-se o pandemónio, cientistas começaram a deitar as mãos à cabeça, mas a frieza das máquinas não deixava dúvidas. Aqueles astronautas jamais voltariam a pisar o planeta Terra, um ligeiro desvio no ângulo de entrada na atmosfera fez com que a fricção fosse excessiva, como consequência os materiais não suportaram a temperatura e deu-se a desintegração completa.
Nos dias seguintes à tragédia, houve uma tremenda atenção por parte dos media e explicações sucederam-se. Falha dos escudos térmicos avançavam uns, erros nos cálculos referiam outros, havia ainda quem divulgasse que os materiais eram de qualidade mais fraca para diminuir os custos, porém o tempo foi passando e o relatório oficial não era divulgado. Lentamente os media foram perdendo o interesse e com eles, a opinião pública em geral. Enquanto isso o relatório foi elaborado e arquivado (chegaram-se a conclusões, mas estas nunca foram divulgadas devido ao embaraço que iriam causar).
A Terra continuava a mover-se como sempre, desde os seus primórdios. Mas com toda a tecnologia ao dispor do ser humano o tempo atómico passou a ser o método mais estável e exacto de medição. Na comunidade científica o método tradicional, o da rotação do eixo da Terra era obsoleto, sendo apenas referido pelas massas, como senso comum. Desse modo esse método mais antigo e também mais instável, necessitava ser acertado, afinal em 700 anos podia-se atingir a diferença de uma hora.
Nesse ano o último minuto teve 61 segundos e para quem pensa que um segundo não é relevante, atente. Num segundo: pode-se dizer o que nunca se disse a vida inteira (amo-te, odeio-te, beija-me, dispara...), bater um recorde, ganhar ou perder uma corrida, uma prova ou até a vida... e falhar a órbita da Terra.

Texto Baseado na notícia:

“No último dia do ano, o último minuto terá 61 segundos, para compensar a rotação do eixo da terra que abrandou ligeiramente. Cientistas decidiram acrescentar ao tempo atómico um segundo para “acertar” o tempo da terra." (Telejornal -RTP1)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A Toupeira e o Rato Voador


Sentado num auditório cheio, sentiu-se sozinho. O orador fazia uma lavagem cerebral sobre uma das empresas que patrocinara o evento. O poder dos patrocinadores sempre o impressionou. Fornecem o dinheiro e ficam com o poder de se envolver no evento, tornando-o aborrecido, enfadonho, vazio. Nesta altura perguntou-se o que fazia ali. A mente assemelhava-se a uma película de cinema, passando imagens velozmente. Pensava no tempo perdido inutilmente, na “obrigação” de estar preso e voou na história.

A Toupeira e o Rato Voador

Na terra verde azeitona da Calipómia existiam duas criaturas. Uma toupeira que vivia no interior da terra, sempre a escavar, a usar outros sentidos para além da visão, no meio da humidade, dos vermes, da escuridão. Por ironia não havia animal mais limpo, o pelo e as suas garras estavam sempre brilhantes, apesar de toda a imundice em que habitava. E o rato voador, este tinha toda a liberdade do espaço, o céu era o limite. Voava e vagabundeava conforme lhe apetecia, mas não tinha amigos, o pelo apesar de limpo tinha sempre um cheiro desagradável, afastando outros seres.
Uma noite a toupeira veio à superfície, gostava de sentir a brisa, o vento nas faces, sonhar com a luz que não podia suportar e principalmente com a possibilidade de voar. Mesmo a sonhar o focinho, perscrutava a escuridão à procura de qualquer indício de predadores ou outros seres. Gostava de saber todas as novidades que aconteciam fora do seu habitat e por isso sempre que podia entabulava conversa. Repentinamente o seu olfacto apurado, detectou um cheiro bastante desagradável, mas como a curiosidade era superior ao desconforto, deixou-se ficar alerta.
Passados poucos segundos, vindo do céu o rato voador pousava as suas patas no solo. Estava com um ar desolado e alienado, lentamente dirigiu-se para um tronco. Sentou-se e começou a chorar, com a voz embargada pelas lágrimas.
- De que me serve voar, conhecer todo o mundo, saber todas as novidades se não tenho amigos? Poder sentar-me e conversar, desabafar, partilhar as minhas histórias e ouvir as de outrem. Haverá algo mais gratificante?
A toupeira ouviu o apelo de solidão e apesar de renitente inicialmente, aproximou-se tocando-lhe. Este lentamente parou de chorar, limpou as lágrimas e levantou a cabeça, à sua frente estava a toupeira de olhos semi-cerrados, a olhar. Ficou confuso, nunca nenhum ser se aproximara tanto de si. Vencendo a surpresa inicial, articulou finalmente.
- Que fazes aqui? Como consegues estar tão próxima, apesar do meu odor pestilento?
- Porque sou curiosa por natureza. Gosto de falar com outros seres, saber novidades do mundo e nunca vi nada que se assemelhasse, um rato voador.
- Pensas então que sou um bicho raro, que deve ser admirado?
- Antes de admirado, respeitado. Não te conheço, não te posso admirar apenas por voares. Ainda para mais se foi um dom com o qual nasceste?
- Sim foi…és ponderada, racionalista e bastante serena.
- E sonhadora, optimista e curiosa…
O rato durante uns momentos calou-se e fixou o olhar no vazio, como se mergulhasse em profunda introspecção. De repente voltou a si.
- Toupeira, vives nas profundezas e és um ser feliz. Eu por meu lado vivo com toda a liberdade e sou uma imagem tua mas assimétrica. Ensina-me a ser como és!
- Ensinar-te a ser feliz? Isso não existe, nem é possível de ensinar. O que posso fazer é passar algum tempo contigo e ensinar-te a ver a felicidade em pequenos momentos, em pequenas coisas, coisas simples e diárias. Depois de observares, trilharás o teu caminho.
Iniciou-se uma nova fase na vida de ambos, mas principalmente do rato voador. A pouco e pouco foi descobrindo os pequenos prazeres. A aurora, as gotas de orvalho nas folhas, os reflexos nos charcos, o vento a murmurar entre árvores, os anéis dos cogumelos, o pôr-do-sol e nascer da lua, o silêncio quebrado pelo riso, pequenas conversas. Tinha pela primeira vez um amigo, ou melhor amiga, neste caso. Finalmente podia relatar a alguém todas as suas experiências, demonstrar a sua inteligência e aprender a ser paciente e mais atento. A toupeira, ouvia histórias de países e reinos distantes, fechava os olhos e com as descrições divagava com a mente. A relação dava pequenos passos, tornava-se forte como uma parede de titânio resplandecente em tons de prata. Certo dia, a meio de uma conversa.
- Toupeira, eu sei o quanto sonhas com voar. Queres voar comigo, para saberes qual a sensação?
A toupeira inicialmente ficou sem reacção. Não acreditava no que ouvia. Voar? Seria verdade? A mente carburava a todo o vapor, debitava pensamentos soltos. Sim, não, concretização de um sonho, medo de sentir a “luz” e não se voltar a adaptar à escuridão, amizade, dúvida…
Vendo que estava confusa, o rato prosseguiu.
- E para te sentires mais à vontade que tal uma permuta? Passas um dia comigo a voar, desculpa, noite no teu caso. E eu vou contigo para debaixo de terra, para as profundezas.
As dúvidas finalmente dissiparam-se, qual nevoeiro que é rasgado pela luz.
- Amadureceste, estás pronto para ser feliz, ou melhor para teres momentos de felicidade na tua vida. Aceito, afinal nada melhor que experimentar-mos o meio em que vivemos para sentir se ele nos molda, ou se molda conforme a nossa vontade.
Nesse dia a toupeira levou o rato para as profundezas, para a escuridão, para as trevas. Mostrou-lhe que mesmo num meio imundo existe beleza. A perfeição das galerias escavadas por ela e pelas suas irmãs, os formigueiros que trabalhavam com a precisão de um mecanismo de corda, os charcos e as grutas onde habitavam estranhos seres, que nunca viram a luz. Raízes e plantas de odores delicados e sabores adocicados. As horas passaram e o dia foi dando lugar à noite, rato e toupeira voltaram para superfície, onde encontraram uma noite de verão auspiciosa. Sentiram a aragem suave que corria e deixaram a terra, voaram juntos durante horas, qual estrelas cadentes. Do céu a toupeira via como o mundo se tornara amplo, livre sem peso; voaram ao lado de bandos de pássaros, furaram nuvens, sentiram os aromas e os sons da noite, percorreram distâncias.
Até que do nada ouvi-se PUM! PUM! Um tiro perfurou o rato voador e a toupeira simultaneamente e começaram a cair em queda livre. Felizmente no meio da dor e do pânico, conseguiram aterrar violentamente no meio da erva. Percorreram metros aos trambolhões, até se imobilizarem finalmente, no chão jaziam toupeira e rato voador. Momentos passaram a toupeira voltou a si e apesar de trôpega e a sangrar abundantemente arrastou-se até ao rato voador. Quando o viu soltou lágrimas, ele ainda respirava, mas com muita dificuldade.
- Fala comigo! Estou aqui! Hoje fizeste-me ver a luz, já não vou morrer na escuridão!
O rato voador, apesar da voz arfada e pesada, sorriu e respondeu.
- Eu hoje conheci a escuridão que me permitiu finalmente ver, que vivi na luz! Graças a ti vi-a finalmente!

Porque a vida é como é! Segue o seu curso natural, impávida e serena, alheia à vontade de cada ser.


Final Versão alternativa

A noite foi perdendo intensidade, o negro foi-se tornando azul-escuro quase negro, até começar a amanhecer. A toupeira fez sinal para descerem, estava na altura de voltar para a escuridão. Pousaram as patas no chão e olharam-se profundamente.
- Fizeste-me ver a luz! Mesmo que viva na escuridão, vou guarda-la no coração.
- Sempre vivi na luz mas sem ver a escuridão, nunca o soube. Graças a ti vi finalmente a iluminação.

Dedicada a todas as crianças existentes em cada um de nós. Por vezes é bom haver finais felizes.